O mercado ilegal no Brasil causou perdas de R$ 473 bilhões no ano passado, valor que quadruplicou em uma década, segundo dados apresentados no seminário Mercado Ilegal, realizado nesta quinta-feira, em Brasília. Especialistas e autoridades defenderam a integração entre inteligência, fiscalização e políticas tributárias para combater organizações criminosas sofisticadas.
A Receita Federal apreendeu R$ 2,2 bilhões em mercadorias irregulares entre janeiro e junho de 2026. O montante inclui itens como eletrônicos, cigarros e canetas emagrecedoras, segmento que registrou salto de R$ 4 milhões no ano anterior para R$ 80 milhões no primeiro semestre deste ano.
Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), afirmou que o contrabando deixou de ser operado por pequenos transportadores para envolver milícias e estruturas organizadas. Dos R$ 473 bilhões em perdas totais, R$ 146 bilhões referem-se a tributos que deixaram de ser arrecadados.
O impacto atinge também serviços básicos. O custo de furtos de energia elétrica é estimado em R$ 11,5 bilhões, elevando a conta de luz dos consumidores em 3,1%, informou Leandro Caixeta, superintendente da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). No setor de água, os desvios somaram R$ 3,6 bilhões em 2024, representando 39% da produção.
Leandro Piquet, professor da USP, alertou para a assimetria regulatória com países vizinhos. Produtos como vapes e sachês de nicotina são proibidos no Brasil, mas permitidos na Argentina e no Paraguai, o que facilita a atuação de redes ilícitas nas fronteiras.
No comércio eletrônico, Ricardo Lagreca Siqueira, diretor do Mercado Livre, disse que a empresa investiu mais de US$ 100 milhões em inteligência artificial para remover anúncios irregulares. A ferramenta permitiu que uma única denúncia derrubasse, em média, cem anúncios.
Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, declarou que a digitalização da economia, com transações instantâneas e NFTs, exige mudanças na forma de investigar e fiscalizar, superando o foco tradicional em bens tangíveis.


