Uma investigação do Ministério Público Federal (MPF) aponta que o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) opera com insuficiência orçamentária, falta de servidores e equipamentos inoperantes. A situação compromete a capacidade do instituto de prevenir tragédias em 1.295 municípios monitorados, especialmente diante da possibilidade de um Super-El Niño.
A apuração da Procuradoria da República em Taubaté (SP) indica que o órgão possui 129 servidores, um déficit de 28% em relação à necessidade atual. Na Sala de Situação, onde ocorre o monitoramento permanente, a direção do Cemaden informou que seriam necessários ao menos 30 profissionais adicionais para completar a equipe.
A precariedade atinge a infraestrutura técnica. Dos nove radares meteorológicos do instituto, apenas cinco funcionam. Na rede pluviométrica, 23,5% dos 991 aparelhos estão inativos por problemas em chips de comunicação ou necessidade de reposição de peças. Documentos mostram que a própria direção do órgão reconheceu falhas na rede que prejudicaram o envio de alertas.
Em 2024, um pluviômetro entupido em uma cidade de Minas Gerais registrou ausência de chuva durante tempestade, resultando em 500 desabrigados. Outro episódio ocorreu em janeiro de 2025, em Ipatinga (MG), onde uma tempestade causou 11 mortes; a prefeitura alegou não ter recebido o alerta com antecedência, enquanto o Cemaden apresentou registros de envio.
O MPF também citou a fragilidade institucional de municípios pequenos, onde alertas são enviados para e-mails pessoais de servidores, dificultando a atualização em trocas de gestão. A procuradora Ana Carolina Haliuc Bragança afirmou que a insuficiência de recursos não vem sendo eficientemente equacionada pelo Estado brasileiro e criticou a falta de sensibilidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Para ampliar a rede de pluviômetros, estima-se a necessidade de R$ 60 milhões adicionais. Em abril, o MCTI solicitou crédito suplementar de R$ 8,4 milhões para evitar a interrupção dos serviços até o fim do ano, mas ainda não obteve retorno da Secretaria de Planejamento. O órgão funciona atualmente em espaço alugado em São José dos Campos (SP), pois o projeto de sede própria segue pendente.
O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação declarou que tem atuado para expandir a capacidade do Cemaden. O Ministério da Gestão e da Inovação informou que pedidos de vagas e concursos são analisados conforme as prioridades e o orçamento.


