Uma pesquisa da ‘A Cara da Democracia’ aponta que as percepções da população brasileira sobre vacinas estão fortemente ligadas à ideologia política, e não somente aos fatores educacionais. Em 2026, cerca de 20% dos entrevistados afirmaram que as vacinas causavam mais danos do que benefícios para crianças.
A questão da vacinação tem histórico de embates sociais, remontando ao século XIX, quando movimentos religiosos se opuseram a avanços da biomedicina. No Brasil, essa oposição ganhou força com a articulação de movimentos políticos e religiosos da extrema direita. A pesquisa, iniciada em 2023, passou a investigar valores gerais da população para entender a base ideológica por trás da desconfiança.
Os resultados mostram uma forte correlação entre a autodefinição ideológica e a concordância com a frase: “A decisão de vacinar deve ser uma decisão individual, sem qualquer interferência ou obrigatoriedade do governo”. Entre os que concordam totalmente, 33% se identificaram como de direita, contra 19% de esquerda e 25% de centro.
A análise também evidenciou que a desconfiança nas vacinas não se explica apenas por desinformação ou baixa escolaridade. Para os eleitores de Bolsonaro no segundo turno de 2022 com ensino superior incompleto ou completo, a ideologia antiestado superou concepções científicas, um cenário diferente do observado entre os eleitores do presidente Lula.
O cientista político Leonardo Avritzer afirmou que a rejeição à intervenção estatal permanece alta em segmentos da direita, mesmo em grupos com maior escolaridade. Os dados sugerem que o desafio das políticas de imunização no país é simultaneamente científico, comunicacional e político.


