Núcleo estratégico da legenda regravou as peças de propaganda eleitoral e ampliou inserções; especialista em matemática eleitoral aponta que a capilaridade construída em Aparecida de Goiânia e o desempenho global da chapa são as variáveis decisivas para a vaga na Câmara dos Deputados
A vereadora Camila Rosa (União Brasil), candidata a deputada federal, passou a integrar o grupo de candidaturas prioritárias do partido em Goiás. A mudança de patamar foi acompanhada de uma decisão prática do núcleo estratégico da legenda: as peças de televisão e rádio da candidata foram regravadas, e o tempo destinado a ela na propaganda eleitoral gratuita, assim como o número de inserções, foi ampliado.
A reavaliação decorre de levantamento interno da legenda, que identificou desempenho consistente da candidata em diferentes regiões do estado — com concentração mais expressiva em Aparecida de Goiânia, segundo maior colégio eleitoral de Goiás. Por se tratar de aferição de caráter estritamente interno, o partido não divulga índices.
Uma trajetória construída fora dos gabinetes
Assistente social de formação, com especializações em Saúde Pública e Saúde da Família, Camila Rosa construiu sua trajetória pública a partir das feiras livres de Aparecida de Goiânia. Em 2018, fundou a COOMAG — Cooperativa dos Agricultores Familiares de Aparecida de Goiânia, a primeira do município, e assumiu a diretoria da AFAG — Associação dos Feirantes de Aparecida de Goiânia.
Eleita vereadora e reeleita em 2024 como a única mulher da Câmara Municipal de Aparecida, consolidou duas frentes principais de atuação parlamentar: a agricultura familiar e o cooperativismo, de um lado, e a proteção e a promoção dos direitos das mulheres, de outro. Nessa segunda frente, é dela a articulação que resultou na criação da Procuradoria da Mulher no Legislativo aparecidense e a autoria do Projeto de Lei Municipal nº 067/2025, que institui a Casa da Mulher Aparecidense, espaço de acolhimento destinado a vítimas de violência doméstica.
A avaliação de estrategistas ouvidos pela reportagem é de que essa biografia funciona, do ponto de vista eleitoral, como um ativo de baixa resistência: a candidata é reconhecida pelo eleitorado antes mesmo da campanha, e sua bandeira é identificável sem necessidade de mediação. Em um pleito de calendário curto, esse reconhecimento prévio reduz o custo de convencimento e torna o voto, na expressão corrente entre os analistas, um voto leve.
“Resultado de trabalho”, diz a candidata
Para Camila Rosa, a nova posição na estratégia partidária é consequência de um acúmulo, e não de um acontecimento isolado. A candidata avalia que a ampliação do espaço na propaganda eleitoral representa, sobretudo, uma oportunidade de apresentar sua candidatura a eleitores de municípios onde sua atuação ainda é pouco conhecida.
Central em seu discurso de campanha está o argumento de que Aparecida de Goiânia nunca elegeu uma mulher para a Assembleia Legislativa ou para a Câmara dos Deputados — dado que a candidata tem reiterado em agendas públicas, ao lembrar que o município reúne 345.994 eleitores, cerca de 6,8% do eleitorado goiano.
Uma cidade deste tamanho não pode continuar sem eleger uma mulher. Não estou pedindo voto por ser mulher; estou pedindo voto por um trabalho que a cidade conhece há anos. O que mudou agora é que mais gente vai poder conhecer esse trabalho.”
A chapa e a conta
A Federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas, disputa as 17 vagas de deputado federal por Goiás com nominata composta por onze candidatos do União Brasil e sete do Progressistas. Camila Rosa divide a chapa com nomes de peso da legenda, entre eles o presidente estadual do partido e da Assembleia Legislativa, Bruno Peixoto, e a deputada federal Silvye Alves, mais votada do estado em 2022.
A leitura predominante no partido é de que a existência de puxadores de voto na chapa, longe de competir com as candidaturas em construção, é justamente o que pode viabilizá-las — mecânica que decorre do sistema proporcional brasileiro. Desde 2020, com o fim das coligações proporcionais, cada partido ou federação disputa isoladamente, e o quociente eleitoral passou a determinar quantas cadeiras cada legenda conquista antes de definir quem as ocupa.
Sobre esse ponto, a reportagem ouviu o especialista em matemática eleitoral Hildebrando Martins. Sua análise parte de duas premissas. A primeira é o calendário: a campanha é curta, e o trabalho de rua tem peso desproporcional nesse intervalo — condição que favorece quem já dispõe de base constituída e dispensa a etapa de apresentação ao eleitorado.
A segunda é a aritmética da chapa. Como a distribuição de vagas ocorre em duas etapas — primeiro entre as legendas, pelo quociente eleitoral, e só depois entre os candidatos, pela votação nominal —, o desempenho dos companheiros de chapa integra diretamente o cálculo de viabilidade de cada candidatura.
O eleitor já sabe quem ela é e sabe o que ela defende. Numa eleição curta, isso é meio caminho andado, porque ela não precisa gastar tempo se apresentando. O desafio dela é outro: é ampliar a agenda, sair de Aparecida e ocupar espaço em outras regiões. E é torcer pelos colegas de chapa, porque quanto mais votos a federação fizer no conjunto, mais cadeiras ela conquista — e maior a chance de a Camila ocupar uma delas.”
O primeiro turno das eleições de 2026 está marcado para 4 de outubro.


