Um deslizamento de rocha e gelo na fronteira do Nepal com o Tibete, ocorrido no dia 26 de agosto, liberou energia superior à da bomba de Hiroshima, que corresponde a cerca de 15 mil toneladas de dinamite. O cálculo foi divulgado na revista Science por Adhikari Basanta Raj, diretor do Centro de Estudos de Desastres da Universidade de Tribhuvan.
A tragédia deixou ao menos 1.066 mortos — sendo 1.050 no Nepal e 16 no Tibete — e 4.562 desaparecidos. A onda de detritos desceu pelo Vale de Bhote Koshi-Trishuli a 150 km/h, elevando o nível dos rios em nove metros em apenas meia hora. A mistura de rochas, solo congelado e água adquiriu consistência de concreto líquido, destruindo florestas, cidades e usinas hidrelétricas.
Uma rede de 85 cientistas de diversos países, coordenada via Slack, descartou a hipótese de que um sismo teria provocado o evento. Dados do Serviço Geológico dos EUA (USGS) sugeriram inicialmente um terremoto de magnitude 4,4, mas análises da Global Seismographic Network reajustaram a magnitude para 5,7, confirmando um dos maiores deslizamentos das últimas décadas.
Imagens da Agência Espacial Indiana e do satélite Landsat-9 revelaram que o evento principal foi um rompimento de montanha que arrastou um glaciar. O sismologista Goran Ekstrom, do Observatório Lamont-Doherty da Universidade de Columbia, explicou que a massa de um glaciar sozinho não teria potência para gerar tal impacto, sendo necessário o deslizamento de rocha para deflagrar a catástrofe.
A geomorfologista Kristen Cook, da Universidade dos Alpes, afirmou que a magnitude do desastre é ao menos dez vezes maior do que inundações ocorridas no Nepal em 2012, 2015 e 2017. Segundo Cook, o aquecimento global tem derretido o permafrost, o solo congelado que une rocha e gelo, tornando o terreno dos Himalaias mais instável.
O governo da China alertou nesta terça-feira (2) sobre o risco de novos colapsos. O Ministério de Recursos Hídricos da China informou, via emissora estatal CCTV, que geleiras próximas a uma cratera aberta pelo deslizamento podem transbordar, já que a estrutura obstruiu parte do fluxo do Rio Chhochen Khola.


