O presidente executivo da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Paulo Solmucci, criticou a possível implementação do fim da escala 6×1 no Brasil. Em entrevista, ele classificou como “irresponsável” a intenção do governo de encaminhar ao Congresso um projeto de lei em regime de urgência para reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais.
Solmucci questionou a súbita urgência do tema, lembrando que propostas semelhantes existem desde 2015, quando o senador Paulo Paim apresentou uma PEC sobre o assunto, seguida por outra em 2019 pelo deputado Reginaldo Lopes, ambos do PT. “Ninguém nunca abraçou esse tema como relevante para o trabalhador”, afirmou.
Ele recordou que, em novembro passado, o próprio ministro Luiz Marinho havia dito que o assunto não deveria ser tratado por lei, mas por debate entre sindicatos patronais e laborais. Solmucci alertou que a jornada de trabalho de 40 horas aumentaria o gasto público em até R$ 4 bilhões.
O presidente da Abrasel destacou que o fim da escala 6×1 traria consequências graves para setores que funcionam sete dias por semana, como bares e restaurantes. “Vamos supor que eu pague um funcionário, um garçom, seis dias para trabalhar R$ 1.000. Se eu reduzir para cinco dias, esse rapaz vai me custar R$ 200 por dia. Portanto, para que eu complete a oferta de serviço, eu vou ter que contratar mais um dia e pagar R$ 200, que representa aumentar o custo do serviço em 20%”, explicou.
Esse aumento de custos, segundo ele, resultaria em um reajuste de 7% a 8% nos preços dos cardápios de bares e restaurantes. Já em clínicas médicas, o impacto seria ainda maior, chegando a 14% ou 15%, devido à maior participação da mão de obra no custo total desses estabelecimentos.
Outro ponto destacado por Solmucci é a atual situação de pleno emprego no Brasil, especialmente para mão de obra qualificada. Ele argumentou que, para encontrar trabalhadores adicionais necessários para cobrir a redução da jornada, empresas maiores ou de regiões mais ricas acabariam buscando profissionais em empresas menores ou em regiões menos favorecidas. “Eu vou buscar uma cozinheira em uma região menos favorecida economicamente porque eu tenho capacidade financeira de pagar e levar para um restaurante chique. A mesma coisa vale para o médico. Eu vou buscar um médico no posto de saúde de uma região menos favorecida e levar para atender os ricos”, exemplificou.
Para Solmucci, essa dinâmica resultaria em uma precarização da oferta de serviços essenciais nas regiões mais pobres, além de favorecer grandes empresas em detrimento das pequenas. Ele defendeu um debate mais amplo sobre o tema: “O que definitivamente nós precisamos é tomar decisões com conhecimento amplo. É importante que conheçamos os custos. Estamos dispostos a pagar mais pelos serviços assistenciais? Estamos dispostos a ter a precarização desse serviço, especialmente entre os mais pobres?”

