A pesquisadora Mariene Ramos investiga o mercado de trabalho das mães solo no Brasil, que somam quase 11 milhões. Ela cresceu em um ambiente cercado por essas mulheres, que criam seus filhos sem o apoio de um parceiro.
Mariene nasceu em Ponte Alta do Bom Jesus, Tocantins, e se mudou para o Distrito Federal aos 7 anos. Sua mãe, após a morte de um irmão e com o pai aposentado, começou a cuidar de crianças de vizinhos para complementar a renda. Mariene ajudou a mãe nessa atividade desde jovem.
Aos 36 anos, Mariene se formou em gestão pública e jornalismo, e se tornou mãe solo, o que a motivou a estudar o tema em seu mestrado no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “Sem rede de apoio, precisei levar minha filha para muitas das aulas”, conta.
Desde 2022, as mulheres passaram a chefiar 52% dos lares brasileiros. Nos lares monoparentais, a chefia feminina chega a 92%, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
A pesquisa de Mariene, coorientada por Carlos Corseuil e Marcos Hecksher, revela que em 2022, mães solo tinham rendimento médio de R$ 2.322, quase 40% abaixo dos pais com cônjuge (R$ 3.869). Elas também apresentaram a menor taxa de ocupação (50,2%) e a menor taxa de contribuição previdenciária (28,3%).
Mariene destaca que a escolaridade é um fator importante, com mais de 55% das mães solo tendo, no máximo, o ensino médio incompleto. Além disso, 62% delas são negras, e 33,5% residem com pessoas acima de 60 anos, representando a chamada “geração sanduíche”.
Para mudar essa realidade, Mariene defende o aumento da oferta de creches em tempo integral e a qualificação profissional das mães solo. Em 2024, apenas 41,2% das crianças de até 3 anos eram atendidas por creches no Brasil, segundo estudo da ONG Todos pela Educação.
“Precisamos olhar para essas mulheres — essa maioria de mulheres nas chefias de lar, essas 11 milhões de mães solo. Não se trata mais de um grupo marginal, mas de uma transformação estrutural do país”, conclui Mariene.


