MC Negão Original está foragido, acusado de lavagem de dinheiro. O cantor, que possui mais de 11 milhões de seguidores nas plataformas digitais, se tornou alvo de uma operação da Polícia Civil de São Paulo que investiga uma organização criminosa especializada em golpes virtuais.
Segundo os investigadores, o artista teria ligação com um esquema de estelionato que fez vítimas em diversos estados e movimentou cerca de R$ 100 milhões ao longo de cinco anos. João Vitor Marcelino Guido, nome verdadeiro do artista, ganhou notoriedade nas redes sociais com músicas que retratam festas, ostentação e expressões típicas do universo do crime.
Algumas dessas gírias aparecem com frequência nas letras, como o termo “Raul”, usado no meio criminoso para se referir a golpistas, e “171”, referência ao artigo 171 do Código Penal, que trata do crime de estelionato. De acordo com a polícia, trechos das canções chamaram a atenção dos investigadores durante a apuração do caso.
““As letras não são, por si só, prova de crime, mas reforçaram suspeitas sobre o contexto investigado”, disse o delegado Fernando José Góes Santiago, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC).”
A operação policial apura a atuação de uma quadrilha especializada em fraudes digitais que se espalharam por diferentes regiões do país. Os criminosos enviavam mensagens de texto ou áudio se passando por funcionários do INSS, solicitando às vítimas uma suposta “prova de vida” para evitar o bloqueio do benefício.
Durante a abordagem, os golpistas convenciam principalmente idosos a participar de chamadas de vídeo e instalar aplicativos em seus celulares, permitindo o acesso remoto aos aparelhos e capturando dados pessoais, senhas bancárias e outras informações sensíveis. Conversas encontradas em celulares apreendidos mostram os criminosos orientando as vítimas passo a passo para instalar os programas e compartilhar a tela do celular.
A investigação também revelou uma estrutura hierárquica dentro da organização criminosa, marcada por gírias utilizadas pelos integrantes. Os “tripeiros” eram responsáveis por encontrar pessoas dispostas a emprestar contas bancárias para movimentação de dinheiro ilícito, enquanto os “conteiros” cediam as contas para receber ou transferir valores, conhecidas como “Lara”, uma referência ao termo “laranja”.
Um dos principais líderes do esquema é Henrique Felipe da Silva, de 30 anos, que seria um “tripeiro” responsável por coordenar parte da movimentação financeira do grupo. Segundo a polícia, ele acumulou patrimônio elevado, com a compra de apartamentos e veículos de luxo, incluindo um Lamborghini, ficando com cerca de 40% do dinheiro obtido pelos golpes.
A investigação aponta ainda que um apartamento no bairro do Tatuapé, na zona leste da capital paulista, funcionava como base de operações da quadrilha. Registros de acesso indicam que MC Negão Original frequentava o local e mantinha relações financeiras com integrantes do grupo, auxiliando na lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada.
Dados bancários analisados pela polícia mostram que as movimentações financeiras cresceram significativamente a partir de 2025, passando de R$ 300 mil no início do ano para ao menos dez vezes maiores no segundo semestre.
Além das fraudes relacionadas ao INSS, a quadrilha também é investigada pelo “golpe do falso advogado”, onde criminosos afirmam que um processo judicial foi ganho e que há uma indenização disponível para saque, exigindo o pagamento de taxas ou custos administrativos.
““São sonhos destruídos. Muitas vezes são pessoas que poderiam ser como nossas mães ou avós. A dor de perceber que foi enganado é muito grande”, afirmou a advogada Aline Heiderich, que teve seu nome utilizado por criminosos para enganar clientes.”


