Diplomatas brasileiros e auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) identificaram a volta da influência de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro nas decisões da Casa Branca. A reclassificação de facções criminosas pelos Estados Unidos mobiliza o Itamaraty.
A avaliação do governo brasileiro é que a ideia de classificar as facções PCC (Primeiro Comando da Capital) e Comando Vermelho (CV) como terroristas resulta de uma articulação entre aliados de Bolsonaro e figuras radicais da extrema-direita trumpista, visando criar uma armadilha para Lula em um ano eleitoral.
O governo brasileiro teme que essa classificação abra caminho para intervenções militares dos EUA no Brasil, ferindo a soberania nacional e possibilitando sanções a instituições financeiras brasileiras. No Palácio do Planalto e no Itamaraty, acredita-se que esses grupos perderam influência nas decisões da Casa Branca após o fracasso do tarifaço e das sanções contra autoridades brasileiras, mas ressurgiram recentemente, especialmente no Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio.
Não houve posicionamento oficial do governo brasileiro desde que se tornou pública a movimentação do Departamento de Estado para classificar as facções como terroristas. A diplomacia brasileira trabalha nos bastidores, mas diplomatas expressam revolta com o que chamam de “balão de ensaio” por parte dos aliados de Trump. Uma fonte do Itamaraty afirmou: “Já produziram o tarifaço e os prejuízos do ano passado. Seguem tentando causar dano a qualquer custo. Só mudou o assunto, depois que o tarifaço naufragou”.
Uma das figuras do Maga no entorno de Trump é Darren Beattie, assessor do presidente americano para políticas ligadas ao Brasil. Beattie, que tem histórico de ataques ao STF e ao governo brasileiro, foi nomeado para o cargo no final de fevereiro. O ministro Alexandre de Moraes autorizou um encontro entre Beattie e Jair Bolsonaro na prisão, mas em data diferente da solicitada por Beattie.
Outra fonte da diplomacia que acompanha as conversas entre Lula e Trump avalia que os integrantes do Maga buscam uma nova agenda após a repercussão negativa na opinião pública americana sobre a guerra no Irã e as ações do Ice em Minnesota.
O governo brasileiro montou uma contra-ofensiva para evitar a classificação das facções como terroristas. No sábado, o chanceler Mauro Vieira telefonou para Marco Rubio, pedindo que não tome decisões sobre o tema antes do encontro entre Lula e Trump, que ainda não tem data definida. Nesta semana, Lula conversou por telefone com os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro, e do México, Cláudia Sheinbaum, mas as notas oficiais não mencionaram o combate ao crime organizado.
Funcionários do governo americano afirmam que a parte técnica do processo está pronta e que o próximo passo é o envio ao Congresso, uma decisão política que depende de Marco Rubio. A Embaixada do Brasil em Washington tem se reunido com deputados e senadores, principalmente democratas, para evitar a aprovação da medida caso Rubio a envie ao Congresso.
Um dos bolsonaristas envolvidos nessa articulação é Paulo Figueiredo, denunciado pela Procuradoria-Geral da República por coação contra autoridades do Poder Judiciário. Ele admitiu que a ideia é criar embaraço na relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos, afirmando: “Pra gente é bom que esse assunto mantenha a tensão entre os dois países”.
Integrantes do governo avaliam que o atraso na reunião entre Lula e Trump, inicialmente prevista para março, pode esfriar a relação entre os presidentes, que foi descrita como de “química excelente”. O ideal, segundo fontes da diplomacia, é que o encontro ocorra antes do ciclo eleitoral começar para afastar ruídos. O Ministério da Justiça preparou um dossiê com iniciativas de combate ao crime organizado para apresentar a Trump.
A diplomacia brasileira identificou a tática de usar o tema da segurança pública para provocar atritos entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca. O Brasil passou a defender medidas de cooperação para combater a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas, além de investigar chefes de organizações criminosas. Até fevereiro, auxiliares de Lula acreditavam que a boa relação pessoal com Trump seria suficiente para barrar interferências no Brasil durante o período eleitoral.
Com a queda na popularidade de Lula e a ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a decisão dos EUA sobre a classificação das facções brasileiras será um termômetro da postura da Casa Branca em relação ao governo Lula até as eleições de outubro.


