Um relatório divulgado na quarta-feira, 11 de março de 2026, será apresentado na sede das Nações Unidas, em Genebra. O documento conclui que o governo de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, cometeu crimes contra a humanidade, incluindo assassinatos, prisão de crianças, tortura, estupros e desaparecimentos forçados.
A violência de Estado teria ocorrido durante o estado de emergência, em vigor desde março de 2022, para combater gangues. O relatório, produzido pelo Grupo Internacional de Peritos para a Investigação de Violações dos Direitos Humanos no Âmbito do Estado de Emergência em El Salvador (GIPES), representa a mais grave acusação por violação de direitos humanos contra Bukele, que já enfrenta dezenas de denúncias em seus seis anos e meio de governo.
Com 275 páginas, o documento se baseia em mais de 1.700 fontes, incluindo entrevistas com vítimas, documentos oficiais, declarações de altos funcionários do governo e relatórios de órgãos de direitos humanos. A equipe de especialistas foi formada em 2024 e inclui Susana Sá Couto, Claudia Martín, Gino Costa, José Guevara e Santiago Canton, com apoio de organizações internacionais como a Fundação para o Devido Processo Legal (DPLF) e a Comissão Internacional de Juristas (CIJ).
“Este relatório acrescenta uma nova camada a todas as discussões em torno das violações dos direitos humanos em El Salvador”, afirmou Claudia Martín. Os especialistas utilizaram normas de direito internacional, como o Estatuto de Roma, para determinar se os eventos analisados constituem crimes contra a humanidade.
O GIPES revelou que o estado de emergência se transformou em uma série de políticas que causaram violações massivas e sistemáticas dos direitos humanos. O relatório afirma que milhares dos aproximadamente 90 mil detidos na “guerra às gangues” foram mantidos sem o devido processo legal, com habeas corpus negados e prisões baseadas em aparência física.
O governo reconheceu que ao menos 8 mil pessoas foram detidas sem justa causa. O documento também aponta que, durante o estado de emergência, foram registradas práticas sistemáticas de tortura e tratamento cruel nas prisões, além de uso de imagens de detidos para propaganda.
Os especialistas afirmam que o estado de emergência foi utilizado para atacar opositores e que, quase quatro anos após sua implementação, não há mais justificativas para sua continuidade, uma vez que os índices de criminalidade foram reduzidos.
O GIPES recomenda a criação de uma comissão independente para revisar os casos de detenções injustas e violações de direitos humanos. O relatório documentou pelo menos 814 casos de tratamento cruel e desumano, além de 540 casos de desaparecimento forçado.
Entre 2022 e 2023, foram relatados entre quatro e dez casos de agressão sexual e estupro em espaços públicos e centros de detenção. O GIPES também observou um aumento nos relatos de extorsão por agentes do Estado durante o estado de emergência.


