Os conflitos recentes no Oriente Médio demonstraram que drones autônomos e sistemas de inteligência artificial (IA) estão sendo empregados para mapear e atacar alvos com rapidez impressionante. Essa tecnologia tem o potencial de alterar significativamente a dinâmica das guerras, permitindo que grandes volumes de dados sejam processados em segundos, desde imagens de satélite até sinais de radar.
A IA encurta o tempo entre a identificação de um alvo e o ataque, transformando decisões que antes exigiam semanas de planejamento em ações quase em tempo real. Isso proporciona uma vantagem significativa para os exércitos que utilizam essa tecnologia.
A principal mudança na guerra contemporânea é que a informação se tornou tão crucial quanto as armas. Os exércitos agora não se concentram apenas em atacar, mas também em analisar dados. Por exemplo, os militares dos Estados Unidos utilizam sistemas como o Maven Smart System (Palantir) e o Claude (Anthropic) para identificar e priorizar alvos automaticamente. Em uma operação recente, o governo norte-americano e aliados atingiram cerca de mil alvos no Irã em apenas 24 horas, uma tarefa que, sem a IA, demandaria semanas de planejamento.
As plataformas de IA cruzam imagens de satélite, dados de sensores e comunicações eletrônicas para detectar padrões, permitindo antecipar movimentos inimigos quase instantaneamente. Com os sistemas da Palantir, é possível identificar posições inimigas em segundos, uma tarefa que antes levava muito mais tempo devido à necessidade de análise humana.
Além disso, a IA é utilizada em diversas outras estratégias de guerra, incluindo logística, manutenção de equipamentos e guerra cibernética. O especialista em negócios digitais e professor da FGV, Pedro Teberga, destaca que o reconhecimento e a vigilância são as áreas que mais utilizam IA atualmente. Na Ucrânia, o sistema Palantir processa dados de campo para o exército ucraniano, identificando padrões de movimentação inimiga com uma velocidade que analistas humanos não conseguiriam alcançar.
Em Gaza, a inteligência israelense utiliza sistemas de reconhecimento facial e análise de redes sociais para rastrear indivíduos em tempo real. Teberga também menciona que a IA já foi empregada em ciberataques, como os que ocorreram na infraestrutura ucraniana antes da invasão de 2022. No entanto, ele ressalta que a capacidade de julgamento tático em situações ambíguas ainda está em desenvolvimento.
Drones autônomos e armas “inteligentes” são exemplos comuns do uso de IA em combates reais. Drones aéreos autônomos já realizam patrulhas e ataques. Recentemente, drones LUCAS, dos Estados Unidos, foram utilizados no conflito com o Irã. Esses drones, conhecidos como “suicidas”, são projetados para missões de ataque único, sendo destruídos após atingir o alvo.
Embora a tecnologia de IA seja mais eficaz nas etapas que precedem os ataques, soldados humanos ainda não foram substituídos por robôs controlados por IA. A sala de controle é onde se decide quem luta, onde, com quê e por quanto tempo. Quando a IA começa a estruturar essas decisões, como já ocorre nos centros de comando israelenses e na coordenação da OTAN com a Ucrânia, o campo de batalha se torna uma consequência de um processo que começou longe dele.
Uma das transformações mais profundas causadas pela IA é a velocidade com que as decisões militares são tomadas. O ciclo decisório do combate, conhecido como loop OODA (Observar, Orientar, Decidir e Agir), é fundamental para a vantagem tática em conflitos. O exército ucraniano, por exemplo, passou a usar drones comerciais integrados a softwares de IA para identificar alvos e coordenar ataques em um tempo que o adversário não consegue acompanhar.
Embora a maioria das operações de guerra ainda dependa da decisão final de humanos, já existem sistemas em que a IA opera com um alto grau de autonomia, como o sistema de defesa antimísseis de Israel, o Domo de Ferro. Nesse caso, o sistema pode interceptar foguetes sem aguardar autorização humana, uma vez que a resposta rápida é crucial para a defesa do país. Teberga observa que, para ataques ofensivos de longo alcance, os grandes exércitos ainda mantêm um humano na cadeia de autorização, mas a linha entre recomendar e decidir está se tornando cada vez mais tênue.


