Um estudo do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) revelou que a planta aquática Salvinia auriculata pode reduzir a presença de antibióticos na água e os danos genéticos em peixes. A pesquisa foi publicada no periódico Environmental Sciences Europe no dia 17 de março de 2026.
A pesquisa, liderada por Patrícia Alexandre Evangelista e apoiada pela FAPESP, combinou monitoramento ambiental, estudos de bioacumulação e experimentos de fitorremediação. As coletas foram realizadas na região da barragem de Santa Maria da Serra, próxima ao reservatório de Barra Bonita, onde se acumulam cargas provenientes da bacia do rio Piracicaba.
O estudo analisou amostras de água, sedimento e peixes em dois períodos: chuvoso e de estiagem. Foram monitorados 12 antibióticos de classes amplamente utilizadas, como tetraciclinas e fluoroquinolonas. “Os resultados mostraram um padrão claro de sazonalidade”, afirmou Evangelista.
As concentrações de antibióticos variaram de nanogramas por litro na água a microgramas por quilo no sedimento. O cloranfenicol, um antibiótico proibido no Brasil, foi detectado em peixes do tipo lambari (Astyanax sp.) apenas no período de estiagem, com concentrações de dezenas de microgramas por quilo.
““O cloranfenicol é um antibiótico cujo uso em animais de produção é proibido no Brasil, justamente por causa dos riscos associados à sua toxicidade”, disse a pesquisadora.”
O estudo também investigou a capacidade da Salvinia auriculata em remover antibióticos do ambiente. Em experimentos, a planta demonstrou uma elevada eficiência na remoção da enrofloxacina, retirando mais de 95% do antibiótico da água em poucos dias. A remoção do cloranfenicol foi mais lenta, variando entre 30% e 45%.
Além disso, a pesquisa revelou que a presença da planta influenciou a bioacumulação nos peixes. Embora a Salvinia tenha reduzido a quantidade de antibióticos na água, em alguns casos houve aumento da velocidade de absorção pelo peixe. “Isso mostra que usar plantas como ‘esponjas’ de contaminantes não é algo trivial”, comentou Evangelista.
Os danos genéticos nos peixes aumentaram com a presença de cloranfenicol, mas foram reduzidos quando a planta estava presente. Para a enrofloxacina, a planta não atenuou os efeitos genotóxicos. “A interpretação que propomos é que, no caso do cloranfenicol, a planta possa gerar subprodutos menos genotóxicos”, explicou a pesquisadora.
Evangelista destacou que a Salvinia auriculata não deve ser vista como uma solução simples para a poluição por antibióticos. O estudo evidencia tanto seu potencial quanto seus limites, ressaltando a necessidade de manejo adequado da biomassa contaminada.
““O estudo mostra que o problema é real, mensurável e complexo”, concluiu Evangelista.”


