Mais de 80 organizações de direitos humanos e defesa do esporte solicitaram ao Comitê Olímpico Internacional (COI) que não implemente testes genéticos universais de sexo para atletas mulheres e que não proíba a participação de competidores transgênero e intersexo. A declaração conjunta foi divulgada na terça-feira, 17 de março de 2026.
Entidades como a Sport & Rights Alliance, a ILGA World e a Humans of Sport alertaram que as medidas, que estariam sendo recomendadas por um grupo de trabalho do COI, representariam um retrocesso na equidade de gênero no esporte. “Diversas fontes afirmam que o grupo aconselhou o COI a exigir que todas as atletas mulheres e meninas passem por verificação genética de sexo e a impedir a participação de atletas transgênero e intersexo em competições femininas. O COI não confirmou publicamente essas recomendações”, diz o comunicado.
O COI, em nota à Reuters, afirmou que nenhuma decisão foi tomada até o momento. “O grupo de trabalho sobre a proteção da categoria feminina segue discutindo o tema e nenhuma decisão foi tomada ainda”, declarou um porta-voz da entidade. “Mais informações serão divulgadas oportunamente.”
Historicamente, o COI deixou de aplicar testes universais de sexo após os Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 e evita impor uma regra universal sobre a participação de atletas transgênero. Em 2021, a entidade orientou federações internacionais a criarem suas próprias diretrizes. Desde então, diversas federações, incluindo as de atletismo, natação e rugby, passaram a impedir a participação de atletas que passaram pela puberdade masculina na categoria feminina.
A diretora-executiva da SRA, Andrea Florence, afirmou que a adoção de testes de sexo e de uma proibição generalizada representaria uma “erosão catastrófica dos direitos e da segurança das mulheres”. “O policiamento de gênero e a exclusão prejudicam todas as mulheres e meninas, além de minar a dignidade e a justiça que o COI afirma defender”, acrescentou.
Por outro lado, o acadêmico britânico Jon Pike, especialista em filosofia do esporte, classificou a carta das organizações como “risível, desesperada e absurda”. Ele afirmou que o grupo de trabalho não vai propor uma proibição total, mas sim excluir homens da categoria feminina. “Essa carta era previsível e, de certa forma, encorajadora. Nada está definido, mas estou otimista diante do pessimismo desse grupo”, completou Pike.
Organismos internacionais, como o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos e a ONU Mulheres, já condenaram testes de sexo e intervenções relacionadas, classificando-os como discriminatórios e prejudiciais. Segundo Payoshni Mitra, diretora-executiva da Humans of Sport, essas práticas “violam a privacidade de mulheres e meninas” e expõem atletas menores de idade a riscos de proteção.
Defensores dos direitos argumentam que banir atletas transgênero e intersexo ignora os obstáculos enfrentados por esses grupos, como assédio e acesso restrito ao esporte. “O esporte deve ser um espaço de pertencimento”, afirmou a diretora-executiva da ILGA World, Julia Ehrt. As organizações sustentam que as propostas contradizem o marco do COI sobre justiça, inclusão e não discriminação, que delega às federações a responsabilidade de estabelecer suas regras.


