As cooperativas brasileiras afirmam que a capacidade do setor público de financiar a agropecuária está em declínio. A mudança estrutural no modelo de financiamento aponta para uma maior participação do mercado de capitais e instrumentos privados, enquanto o crédito público perde importância.
O presidente do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), Márcio Lopes de Freitas, destacou que o Plano Safra ainda é relevante, mas não é mais o principal motor de financiamento da produção. ‘Nós vamos ter dificuldade. A capacidade dos governos de arrumar crédito para a agricultura brasileira está cada vez mais diminuída’, afirmou Freitas durante apresentação da agenda do setor.
Atualmente, o Tesouro Nacional destina cerca de R$ 13 bilhões para equalizar juros, enquanto a agropecuária movimenta cerca de R$ 2 trilhões. Essa diferença tem sido suprida por operações privadas, como barter, crédito de fornecedores e emissões no mercado financeiro. Freitas ressaltou que o avanço desse modelo depende de segurança jurídica e instrumentos de mitigação de risco.
Dados do Ministério da Agricultura mostram que o estoque de instrumentos privados, como CPR (Cédula de Produto Rural), LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) e CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio), já supera R$ 1,4 trilhão no Brasil, aumentando a participação do mercado de capitais no financiamento da produção. Técnicos e integrantes da Esplanada afirmam que a diversificação das fontes de recursos se tornou uma necessidade devido às limitações fiscais.
A mudança ocorre em um momento de perda de renda e fragilidade financeira no campo. Freitas apontou que a queda nos preços das commodities e os custos elevados reduziram a margem da atividade, especialmente para pequenos produtores. ‘Hoje a perda de renda do setor agrícola é muito grande’, disse Freitas, mencionando a queda do preço da soja.
A dependência de produtos importados para as cadeias produtivas é um risco estrutural. A presidente executiva da OCB, Tânia Zanella, destacou a necessidade de políticas estruturantes para enfrentar essas fragilidades. ‘O Brasil é muito dependente ainda dessa questão dos insumos fertilizantes de outros países’, afirmou.
Com o crédito mais caro, as cooperativas tendem a ganhar relevância como elo entre produtores e financiamento. Atualmente, cerca de 54% da originação da produção passa por cooperativas, que oferecem crédito, insumos, armazenagem e comercialização. ‘As cooperativas têm uma participação muito grande dentro do setor produtivo agropecuário’, disse Zanella.
O setor apresentou sua agenda institucional para 2026, focando em instrumentos que reduzam riscos e ampliem a previsibilidade. O seguro agrícola é uma prioridade, e a agenda inclui a manutenção do crédito rural, estímulo a instrumentos privados de financiamento e investimentos em logística e armazenagem.


