As apostas online e os caça-níqueis virtuais estão se tornando um problema de saúde pública no Brasil. O aumento do acesso via celular e a publicidade intensa contribuíram para o crescimento do número de jogadores frequentes, elevando o risco de transtornos que afetam a saúde mental e a vida social.
Em 2013, o transtorno de jogos de azar foi reconhecido no DSM-5 como equivalente a dependências químicas. Em 2022, a CID-11 da OMS reconheceu oficialmente o transtorno de jogos eletrônicos, incluindo as apostas online. Pesquisas em neuroimagem demonstraram que o cérebro de pessoas com compulsão por jogos ativa os mesmos circuitos de recompensa que as dependências de substâncias.
O Lenad III, estudo da Universidade Federal de São Paulo, revelou que quase 11 milhões de brasileiros (7,3% da população) apresentam comportamento de risco em relação a jogos. Desses, 1,4 milhão já apresentam sintomas de transtorno do jogo, caracterizado pela perda de controle mesmo diante de prejuízos financeiros.
Embora as loterias físicas ainda sejam a opção mais comum, 9 milhões de pessoas (5,6% da população) já utilizam sites de apostas esportivas, com 66,8% desse grupo apresentando comportamento de risco. As características das plataformas digitais, como acesso fácil e recursos que estimulam padrões compulsivos, agravam a situação.
O transtorno se manifesta quando o jogador aposta mais do que pretendia, sente ansiedade ou culpa após apostar e tenta recuperar perdas, levando à negligência de compromissos. O endividamento e a alteração nas relações familiares são comuns em casos mais graves.
Os grupos mais vulneráveis incluem usuários de plataformas digitais, adolescentes e pessoas com renda inferior a um salário mínimo. Medidas já foram implementadas, como a proibição de cadastro de menores de 18 anos em plataformas de apostas e o bloqueio de publicidade direcionada a crianças.
Um relatório do Banco Central de 2024 indicou que beneficiários do Bolsa Família destinaram R$ 3 bilhões às apostas em agosto, levando o STF a vetar o acesso desses beneficiários a sites de apostas. Indivíduos com renda inferior a um salário mínimo têm três vezes mais risco de desenvolver padrões problemáticos de jogo.
O SUS enfrenta desafios para lidar com essa questão, pois faltam protocolos de triagem e tratamento adequados. Recentemente, o Ministério da Saúde anunciou a criação de um serviço de teleatendimento voltado para o vício em apostas, com um autoteste para medir a gravidade do comportamento de jogo.
É fundamental tratar os afetados e regular o mercado de apostas, implementando medidas de redução de danos. Além disso, é necessário combater o estigma que impede a busca por ajuda e realizar campanhas de esclarecimento sobre como procurar auxílio.


