Apesar do crescimento da renda e da baixa taxa de desemprego, o custo de vida pressiona as famílias brasileiras, gerando recordes de inadimplência. A inflação dos alimentos, em particular, e a alta taxa de juros dificultam o pagamento de compromissos financeiros.
André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV Ibre, informou que os preços de alimentação no domicílio acumulam alta de 63% desde 2020. Esse avanço é superior aos 43% registrados pelo IPCA geral no mesmo período. Braz explicou que a alimentação subiu vinte pontos percentuais acima da inflação média nos últimos seis anos, impedindo que o crescimento real da renda acompanhasse essa elevação de custos.
A alta nos preços dos alimentos resulta de choques globais e climáticos. A pandemia impulsionou a inflação em 2020, seguida por crises hídricas e os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022, que elevaram custos de commodities como soja e trigo. Mais recentemente, os impactos climáticos do El Niño pressionaram os preços em 2024.
Sobre os salários, a economista Andréa Angelo, da Warren Investimentos, disse que as negociações sindicais têm garantido ganhos reais aos trabalhadores desde meados do ano passado. Ela citou o Salariômetro da Fipe, que aponta reajustes médios acima da inflação, embora esse cenário não abranja trabalhadores autônomos ou de setores com menor força sindical.
Rodolpho Tobler, economista da FGV Ibre, atribuiu o aperto orçamentário ao peso das dívidas e à taxa Selic em 14%. Ele alertou que o risco econômico surge quando o acesso ao crédito é acompanhado pela alta inadimplência, medida por dívidas em atraso há mais de noventa dias. Outro fator de redução do consumo é o direcionamento de cerca de R$ 60 bilhões anuais para apostas esportivas online.


