Os crimes virtuais envolvendo crianças e adolescentes cresceram 78% durante as últimas férias escolares, segundo dados do Núcleo de Observação e Análise Digital (NOAD), da Polícia Civil de São Paulo. O número de vítimas saltou de 89 para 158 na comparação com o mesmo período do ano anterior.
O levantamento indica que a violência nesses ambientes tornou-se mais grave. Entre as infrações identificadas pela Polícia Civil estão o aliciamento, a exploração sexual, ameaças, extorsão e violência psicológica. A diretora do NOAD, Lisandrea Colabuono, afirmou que o consumo de violência extrema pode evoluir para a indução ao suicídio e à automutilação.
O cenário coincide com a atuação do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e da Advocacia-Geral da União (AGU), que apresentaram nesta quarta-feira (26) uma Ação Civil Pública e uma cautelar indenizatória de R$ 500 milhões contra a plataforma Discord. A medida ocorre após a morte de uma adolescente de 13 anos durante uma transmissão ao vivo, o que levou a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) a suspender preventivamente as lives do serviço no país.
Segundo Colabuono, o aliciamento costuma começar em jogos ou redes sociais, migrando para plataformas de imagem via “webnamoro”. O criminoso utiliza fotografias íntimas para extorquir a vítima, que pode ser pressionada a realizar atos de automutilação ao vivo para evitar a divulgação das imagens. A diretora informou que o NOAD já contabiliza 609 alvos presos ou apreendidos.
A maioria das vítimas são meninas entre 6 e 15 anos, enquanto os autores são predominantemente meninos e adolescentes de 12 a 17 anos. A psicóloga infantojuvenil Fernanda Fusco explicou que a exposição repetida a conteúdos violentos gera uma dessensibilização, criando um “calo emocional” que faz com que a criança passe a entender a violência como algo banal.
A especialista orientou que pais observem mudanças bruscas de comportamento, como vocabulário agressivo, isolamento ou sigilo excessivo com o celular. De acordo com a Polícia Civil, o principal fator de vulnerabilidade é o acesso irrestrito e ilimitado de crianças e adolescentes às telas.


