Dez anos após o impeachment de Dilma Rousseff, personagens do processo divergem sobre as razões da queda da ex-presidente, mas concordam que o episódio provocou mudanças profundas na política brasileira, como o enfraquecimento de partidos tradicionais e a ascensão da direita liderada por Jair Bolsonaro.
O Senado concluiu o julgamento em 31 de agosto de 2016, com 61 votos a favor da condenação e 20 contra. Dilma foi condenada por crime de responsabilidade e perdeu o mandato, embora tenha mantido os direitos políticos. O processo, iniciado em dezembro de 2015 na Câmara dos Deputados, ocorreu sob a pressão de manifestações populares e as investigações da Operação Lava Jato.
Fernando Limongi, professor da Universidade de São Paulo (USP), avalia que a ruptura começou no primeiro mandato, quando a presidente demitiu diretores da Petrobras indicados por partidos da base, como o PMDB e o PP. Segundo Limongi, o julgamento do Mensalão também pressionou a ex-presidente, que enfrentava conflitos internos na coalizão e a necessidade de se posicionar sobre a corrupção.
A perda de apoio no Congresso se agravou em 2015 com as investigações contra Eduardo Cunha, então presidente da Câmara. Cunha rompeu formalmente com o governo ao alegar que o Palácio do Planalto teria interferido na Operação Lava Jato para incriminá-lo. O deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) informou que alertou a presidente sobre o esvaziamento da base governista em agosto daquele ano.
As razões técnicas do pedido de afastamento também são debatidas. A vereadora de São Paulo Janaína Paschoal (PP), coautora do pedido, fundamentou a ação em fraudes e violações à responsabilidade fiscal. Já o deputado Kim Kataguiri (Missão-SP), ex-líder do Movimento Brasil Livre (MBL), cita as pedaladas fiscais e a compra da refinaria de Pasadena como motores do processo e das manifestações na Avenida Paulista.
Ao final do julgamento, Dilma discursou por 40 minutos aos senadores. Ela afirmou que a democracia estava no banco dos réus e classificou o impeachment como um golpe que agravaria a crise brasileira, pedindo que os parlamentares votassem contra a condenação para preservar a democracia.


