A psiquiatra Elisa Brietzke, professora do Departamento de Psiquiatria da Queen’s University, no Canadá, afirmou que era comum receber pacientes convencidos de que possuíam a “síndrome do pensamento acelerado”. O conceito, criado por Augusto Cury, teria levado pessoas a ignorarem sintomas de depressão ou transtorno bipolar em consultórios médicos.
Segundo Brietzke, as afirmações nos livros de Cury são problemáticas por não possuírem embasamento na melhor evidência científica disponível. A médica explicou que, embora o autor possua registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) e qualificação de especialista (RQE), ele se dedica a obras de autoajuda desde 2010.
A disseminação desses conceitos foi impulsionada por uma estratégia de distribuição via consultoras da Avon, que levou os livros a milhares de brasileiros, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. A capilaridade da empresa permitiu que as obras chegassem a casas onde o acesso à saúde mental é limitado.
A médica citou dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) que indicam que entre 70% e 80% das pessoas com problemas psiquiátricos comuns, como depressão, nunca chegam a um profissional de saúde. Brietzke atribuiu parte da responsabilidade à imprensa, que não teria feito o contraponto necessário àqueles conteúdos no período.
Sobre a trajetória de Cury, a psiquiatra mencionou a conversão do autor ao cristianismo por volta de 2017 e questionou se sua atual entrada na política reflete um projeto real ou uma estratégia para recuperar espaço no mercado editorial.
A professora também comentou sobre propostas de automação e telemedicina ligadas ao escritor. Brietzke reconhece o potencial técnico para levar especialistas a áreas remotas, mas afirmou que a tecnologia não resolve problemas estruturais, como a necessidade de investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) e na estratégia de saúde da família.
A médica defendeu que a autoridade profissional de um médico deve ser mantida fora do consultório. Para ela, profissionais não podem utilizar sua posição para disseminar informações em livros, cursos ou redes sociais que não sejam cientificamente validadas ou que sejam exageradas.


