Um consórcio de pesquisadores analisou mais de 1 milhão de genomas e identificou 1.260 marcadores genéticos ligados à personalidade, segundo estudo publicado na quarta-feira (2) na revista Nature. Os dados indicam que o temperamento humano é moldado por milhares de pequenas variantes genéticas, e não por genes específicos.
A apuração utilizou dados de 46 grupos de estudo e comparou genes de irmãos e pares de pais e filhos para isolar fatores ambientais. Quase dois terços dos marcadores encontrados foram identificados pela primeira vez. Elliot Tucker-Drob, professor de psicologia da Universidade do Texas em Austin e líder do estudo, afirmou que as variantes servem como prova de que a ciência agora tem poder para responder perguntas anteriormente impossíveis.
As variantes identificadas representam entre 5% e 10% da variação de personalidade entre as pessoas. No entanto, a análise revelou que 96% da influência genética provém diretamente do DNA, diferenciando-se de casos de desempenho acadêmico, onde o ambiente familiar costuma mascarar a genética. O estudo focou nos cinco grandes traços da psicologia: extroversão, amabilidade, conscienciosidade, neuroticismo e abertura à experiência.
No caso da extroversão, foram encontradas 258 variantes, aumento de 15 vezes em relação ao conhecimento anterior. Perfis com alta extroversão apresentam menor risco de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático, embora estejam associados ao transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH). Já a conscienciosidade correlacionou-se a melhores hábitos de sono, alimentação e exercícios físicos.
O neuroticismo, ligado à instabilidade emocional, mostrou correlação com 10 transtornos psiquiátricos, tabagismo e maior índice de massa corporal. A análise indicou que tais variantes são ativas em células cerebrais, mas não apresentou evidências significativas sobre o sistema de serotonina. Dalton Conley, sociólogo da Universidade de Princeton, disse que o resultado lança dúvidas sobre a teoria de que o neuroticismo é impulsionado por níveis desse neurotransmissor.
A pesquisa também observou que a escolha de parceiros não segue um padrão de semelhança genética nos traços de personalidade, ocorrendo de forma quase aleatória. Apenas a abertura a novas experiências apresentou correlação entre cônjuges, o que pode ser reflexo da convivência diária.


