A inflação de produtos e serviços consumidos tipicamente pela classe média pode atuar como fator de insatisfação social e influenciar as eleições deste ano. Dez itens, incluindo plano de saúde, gasolina e ensino fundamental, respondem por mais de 2,1 pontos percentuais dos 4,4% de inflação acumulada nos últimos 12 meses.
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) referente a agosto de 2026 será divulgado nesta sexta-feira (11). Embora a inflação brasileira esteja dentro do teto da meta de 4,5% ao ano, a combinação entre a variação de preços e o peso de cada item na cesta de consumo impacta a percepção do eleitor.
Lucio Rennó, professor da Universidade de Brasília, afirma que a perda da capacidade de consumo e do padrão de vida pode ser central na insatisfação política desse grupo. Segundo Rennó, a classe média sente o ônus financeiro de políticas distributivas sem receber contrapartidas em serviços públicos, o que gera um sentimento de perda de identidade e status.
A economista Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, explica que o salário é o indicador que mais se relaciona com a aprovação de um governo, mas a renda nominal perde poder de compra com a alta de preços e o custo das dívidas. Para Feijó, as redes sociais ampliam a sensação de perda de status ao elevar a expectativa de consumo.
Entre os itens que mais contribuíram para o índice estão energia elétrica residencial, passagem aérea, gasolina, plano de saúde e aluguel. A energia elétrica lidera o ranking pelo peso no orçamento, enquanto a passagem aérea teve alta de quase 42%, compensando sua menor importância relativa na cesta de consumo.
Frederico Batista Pereira, professor da Universidade da Carolina do Norte, indica que o segmento que ganha entre dois e cinco salários mínimos, concentrado no Sudeste, é o mais sensível a essa pressão. Ele observa que a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está baixa em comparação a outros presidentes, mesmo considerando a correlação com o IPCA.
Benjamin Rosenthal, professor da FGV, argumenta que a inflação não atua sozinha. Ele cita a expansão dos gastos com apostas esportivas (bets) como um novo fator que ocupa espaço no orçamento das famílias. Rosenthal ressalta que a inflação não aparece entre as três principais preocupações do eleitorado, ficando atrás de segurança pública e saúde.


