A psicanalista argentina Susana Toporosi afirma que o abuso sexual contra crianças e adolescentes é, primordialmente, um crime de poder que utiliza a sexualidade como instrumento. Segundo a especialista, a violência é um problema estrutural e político, e não uma falha individual, manifestando-se frequentemente no ambiente íntimo da família.
Toporosi, que é coordenadora de Saúde Mental da Adolescência no Hospital Infantil Ricardo Gutiérrez, em Buenos Aires, explica que o trauma provoca distorções na memória e na capacidade de elaboração da violência. A experiência, quando não simbolizada, retorna por meio de sintomas, angústias ou manifestações corporais. A situação se agrava quando a vítima não encontra proteção ou quando adultos desmentem seu relato.
A especialista aponta que a incredulidade e o abandono de figuras de apego, como mães que protegem o agressor, podem causar uma retraumatização profunda. Para a psicanalista, as sequelas mais difíceis de reparar não derivam apenas da agressão, mas da negligência institucional e da culpabilização da vítima.
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que 85,6% das ocorrências de abuso sexual na infância envolvem meninas e adolescentes de até 14 anos, enquanto 14,4% são meninos. No mapeamento de crimes de produção e distribuição de material de abuso infantil, a predominância feminina é de 84,2%, com 78,3% das vítimas na faixa da adolescência.
A autora associa a violência sexual à chamada masculinidade da submissão, termo de Alejandro Vainer e Carlos Barzani. O conceito descreve homens empobrecidos de direitos que descarregam a ilusão de poder sobre populações marginalizadas e crianças, impulsionando a escalada de feminicídios e violência intrafamiliar.
O cenário é intensificado pelo uso de tecnologias digitais, com adultos que utilizam a ocultação de identidade para acessar a intimidade de jovens. Toporosi cita a inteligência artificial e a pornografia sintética como evidências da sofisticação da violência de gênero atual.
A psicanalista estará no Brasil em setembro para participar do Congresso de Psicopatologia Fundamental, em Vitória (ES), evento organizado pela Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental.


