Famílias de pessoas privadas de liberdade no Brasil gastam anualmente R$ 4,33 bilhões para adquirir itens básicos de higiene e alimentação que deveriam ser fornecidos pelo Estado. O dado consta em pesquisa divulgada pela Pastoral Carcerária Nacional em parceria com a Assessoria Popular Maria Felipa, que aponta que visitas semanais consomem 69,4% de um salário mínimo.
O estudo, baseado em 2.706 entrevistas, revela que 56,9% dos respondentes desembolsam mais de R$ 200 em cada visita. O custo médio de um kit de suprimentos para 15 dias é de R$ 263,67, valor que sobe quando somados gastos com transporte, alimentação e hospedagem. Para quem visita semanalmente, o custo estimado chega a R$ 1.053,90.
A pesquisa indica que a carga financeira recai majoritariamente sobre as mulheres, que representam 94,1% dos visitantes sociais, com destaque para as esposas (30,3%). Entre os visitantes, 65,5% são pessoas pretas ou pardas, com 32,6% na faixa etária entre 25 e 34 anos. Os pesquisadores classificam a situação como um ônus estrutural que produz danos sociais e econômicos.
Além do impacto financeiro, 58,9% dos entrevistados relataram ter sofrido violências ou constrangimentos institucionais. A revista íntima foi citada por 32,5% dos respondentes. O estudo aponta que 90,1% dos familiares atribuem a piora em sua saúde ao tratamento recebido nas unidades prisionais, citando humilhações e tortura institucional.
A advogada Fernanda Oliveira, cofundadora da assessoria Maria Felipa, afirmou que a rotina de visitas gera angústia e adoecimento mental em escala industrial para as mulheres. Oliveira, que foi coordenadora-geral de Combate a Tortura no Ministério de Direitos Humanos e da Cidadização, associa a situação ao dever de cuidado assumido pelas companheiras e mães.
Dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, mostram que apenas 2,47% das famílias recebem o auxílio-reclusão, devido à baixa contribuição previdenciária dos detentos. No segundo semestre de 2025, a população carcerária era de 727.301 pessoas para 505.267 vagas, resultando em um déficit de 222.034 vagas.


