O mercado ilegal no Brasil deixou de ser composto por pequenos transportadores para se tornar um sistema econômico criminoso articulado, com prejuízos que atingiram R$ 473 bilhões no ano passado, segundo dados do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP) apresentados em seminário em Brasília.
O presidente do FNCP, Edson Vismona, afirmou que o volume de perdas era de R$ 100 bilhões em 2014. Para Vismona, a alta lucratividade do contrabando é impulsionada pela carga tributária, argumentando que a falta de regulação de produtos como o cigarro eletrônico entrega o abastecimento ao comércio clandestino. Ele informou que entidades do setor denunciam mensalmente mais de 17 mil anúncios de cigarros ilegais em plataformas digitais.
A Receita Federal registrou um salto nas apreensões de medicamentos emagrecedores, que passaram de R$ 4 milhões no primeiro semestre de 2025 para mais de R$ 80 milhões no mesmo período deste ano. Erivelto Moysés Torrico Alencar, superintendente regional adjunto da Receita Federal na 1ª Região Fiscal, citou casos em Mato Grosso do Sul onde uma única pessoa transportava R$ 20 milhões em perfumes e R$ 1,5 milhão em remédios.
O órgão federal tenta combater as chamadas empresas noteiras, firmas abertas apenas para emitir documentos fiscais falsos e esconder a origem de mercadorias. Embora as apreensões tenham subido de R$ 3 bilhões em 2022 para R$ 4,2 bilhões em 2025, Alencar disse que esse volume representa entre 0,5% e 1% do total que entra irregularmente no país.
No agronegócio, o professor Leandro Piquet, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (ESEM-USP), alertou para a entrada de defensivos proibidos, como o herbicida paraquat. A importação ilegal desses produtos pode fechar mercados internacionais para a soja brasileira. Piquet informou que 25% dos entrevistados em levantamento da instituição admitiram que consumiriam produtos ilegais se fossem mais baratos.
O pesquisador da USP defendeu que o endurecimento de penas não resolve o problema sem investigação real. Ele sugeriu a adoção de um modelo baseado na experiência italiana, que integra inteligência policial, tributária e financeira para desarticular organizações com grande capacidade financeira.


