Especialistas avaliaram, nesta quinta-feira (27), em seminário realizado em Brasília, que a expansão do mercado ilegal e a atuação de organizações criminosas em cadeias produtivas exigem maior integração entre órgãos públicos, inteligência e políticas tributárias para frear a sofisticada estrutura do contrabando no Brasil.
A Receita Federal apreendeu R$ 2,2 bilhões em mercadorias irregulares entre janeiro e junho deste ano, volume superior aos R$ 2 bilhões registrados no mesmo período de 2025. O balanço abrange desde cigarros e eletrônicos até medicamentos emagrecedores, cujas apreensões saltaram de R$ 4 milhões para mais de R$ 80 milhões no primeiro semestre.
Edson Vismona, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), afirmou que o contrabando deixou de ser operado por pequenos transportadores para se tornar um sistema econômico criminoso. Segundo Vismona, a alta carga tributária aumenta a rentabilidade do produto ilegal, citando que cigarros fabricados no Paraguai percorrem rotas por Bolívia, Peru, Chile e Guianas antes de entrar no país.
Dados do FNCP indicam que as perdas do mercado ilegal subiram de R$ 100 bilhões em 2014 para R$ 473 bilhões no ano passado, considerando 15 setores. Desse montante, R$ 146 bilhões referem-se a tributos não arrecadados. Atualmente, o fórum monitora 50 setores afetados, incluindo celulares, bebidas e TV por assinatura.
Erivelto Moysés Torrico Alencar, superintendente-adjunto da Receita Federal na 1ª Região Fiscal, defendeu a cooperação entre entes públicos para evitar a fragmentação de informações. Alencar informou que as apreensões anuais subiram de R$ 3 bilhões em 2022 para aproximadamente R$ 4,2 bilhões em 2025.
Leandro Piquet, professor da Universidade de São Paulo (USP), disse que a investigação desses crimes agora exige especialização em inteligência tributária e financeira. Piquet afirmou que agências reguladoras devem considerar a infiltração do crime organizado na economia ao formular políticas, sob risco de a proibição de produtos apenas deslocar o problema para a área de segurança pública.

