Famílias de detentos no Brasil gastam cerca de R$ 4,33 bilhões por ano para comprar suprimentos básicos de higiene e alimentação que deveriam ser fornecidos pelo Estado. O dado consta na pesquisa A pena sem sentença, divulgada pela Pastoral Carcerária Nacional em parceria com a Assessoria Popular Maria Felipa.
O estudo, baseado em 2.706 entrevistas, indica que quem visita detentos uma vez por semana gasta, em média, 69,4% de um salário mínimo. O cálculo considera a renda de R$ 1.518 vigente em 2025. Para visitas quinzenais, o custo estimado é de R$ 624,80, enquanto a frequência semanal eleva a despesa para R$ 1.053,90, incluindo transporte e alimentação no trajeto.
A carga financeira recai majoritariamente sobre mulheres, que representam 94,1% dos visitantes sociais, sendo as esposas o grupo principal, com 30,3%. O relatório aponta que 65,5% dos visitantes são pretos ou pardos, descrevendo o cenário como uma feminização e racialização do trabalho social que sustenta o sistema penitenciário.
Mais de metade dos entrevistados, 56,9%, declarou gastar mais de R$ 200 em cada visita. Um kit de vestuário, higiene e alimentos para 15 dias custa, em média, R$ 263,67. A pesquisa afirma que esses gastos não são ocasionais, mas obrigações financeiras contínuas para suprir a precariedade estrutural e a superlotação das unidades.
Além do impacto econômico, 58,9% dos visitantes relataram ter sofrido constrangimentos ou violências institucionais. Entre as ocorrências estão a revista íntima, citada por 32,5%, e a exigência de documentos cartoriais para comprovar vínculo. Para 90,1% dos participantes, a rotina de visitas piorou a saúde, quadro que a pesquisadora Fernanda Oliveira relaciona a um estado permanente de alerta.
Apenas 2,47% das famílias recebem o auxílio-reclusão, segundo a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), pois o benefício exige contribuição ao INSS por ao menos 24 meses. No segundo semestre de 2025, as penitenciárias brasileiras tinham 727.301 pessoas para 505.267 vagas, resultando em um déficit de 222.034 postos.
A coordenadora nacional da Pastoral Carcerária, irmã Petra Silvia Pfaller, afirmou que a violência policial e as torturas se aprofundaram nos últimos 30 anos. Pfaller disse que o deslocamento de presos para unidades distantes da família agrava as dificuldades financeiras e defendeu a fiscalização do sistema, citando que familiares costumam se calar por medo de represálias.


