Mais de mil crianças e adolescentes com deficiência aguardam por adoção no Brasil. Em dezembro de 2025, havia 1.146 crianças e adolescentes de até 16 anos, com alguma deficiência, disponíveis para adoção, segundo o Conselho Nacional de Justiça. Na fila de pretendentes ativos, mais de 32 mil.
Diego*, de 15 anos, vive em um abrigo em São Paulo e foi transferido para lá em 2015, após ser diagnosticado com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ele não fala, mas interage com os demais acolhidos. “Diego foi inserido no Cadastro Nacional de Adoção, mas até agora não surgiu nenhum pretendente”, afirma Dirce*, coordenadora da instituição.
Mônica Gonzaga Arnoni, juíza assessora da Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo, explica que o perfil escolhido pelos adotantes é muito restrito. “As crianças com deficiência frequentemente acabam ficando nas instituições de acolhimento até alcançarem a maioridade”.
Na Casa Lar Dona Meca, no Rio de Janeiro, são acolhidos apenas crianças e jovens com deficiência. “A gente tem a entrada, mas não tem a saída. Houve alguns casos de reintegração e de adoção, mas é um número muito pequeno”, diz Jéssica Souza, coordenadora da instituição. Em 2025, foram apenas 173 adoções de pessoas com deficiência no Brasil.
A permanência em abrigos pode prejudicar o desenvolvimento das crianças. Charles Zeanah, neurocientista, afirma que os cuidados institucionais alteram a estrutura e o funcionamento do cérebro. “Os efeitos do cuidado institucional alteram os avanços cognitivos, as funções executivas, o desenvolvimento emocional e a saúde mental”.
Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento mostram que 67% dos pretendentes aceitam apenas crianças sem deficiência. A resistência é maior quando o diagnóstico envolve comprometimento intelectual, com apenas 5% dos habilitados considerando essa possibilidade. Fabrício e Bruno, pais de Sérgio, adotaram um menino com autismo e não estabeleceram restrições no cadastro de adoção.
Os principais fatores que afastam as famílias da adoção de crianças com deficiência incluem sobrecarga emocional, dificuldades financeiras e falta de apoio do poder público. O defensor público Gustavo Samuel Santos afirma que muitas vezes o Estado retira a criança da mãe por falta de condições de moradia, em vez de investir em políticas de assistência.
Instituições como a Fraternidade Irmã Clara, em São Paulo, acolhem pessoas que atingiram a maioridade, mas não têm autonomia para morar sozinhas. Rinaldo Castro, de 37 anos, reside em uma dessas instituições, onde não há familiares disponíveis para cuidados.


